Pareço gorda? Sou gorda? Caminhos e descaminhos do corpo.

Pareço gorda? Sou gorda?

“Ela só tinha comido salada, um grelhado, dois ou três litros de água durante todo o
dia, além de alguns chás diuréticos… sentia-se fraca, embora todos lhe dissessem:
Muito bem! Você tem foco, assim vai atingir sua meta! – Chegou em casa no final do
dia, tinha tido problemas no trabalho, sentia-se com fome, precisava muito comer.
Não se segurou, comeu tudo o que tinha na geladeira, pizza, carne, refrigerante,
chocolate, leite condensado… Assim que terminou começou a chorar muito quando
se deu conta de tudo o que comeu. E continuava com fome… muita fome…”

Muita gente é gorda. Muita gente não consegue emagrecer ou se manter magra. Em tantos anos de atuação clínica, seguimos escutando o que essas pessoas têm a nos dizer. Sofrem diariamente, tentando se desculpar com todos, por não conseguirem atingir um padrão estético, um padrão que muda de tempos em tempos exigindo novos esforços ou sacrifícios para uma adaptação, parecendo não haver escolha. Na verdade, nos parece ser retirado abruptamente da pessoa o direito de escolha.

Existe uma conotação moral em torno da obesidade. É fácil observarmos: ninguém pede desculpas ou se envergonha porque está resfriado ou com gastrite, ou com câncer, porém, se está fora do peso (aquele IMC que parece medir nossa incompetência) tem que se justificar, explicar e buscar todas as formas e possibilidades de dietas, remédios, atividades físicas e prometer que vai mudar, afinal o que dizem é que tudo depende de você, da sua disciplina e força de vontade! Será?

Então, o sucesso de uma pessoa é ter um corpo magro dentro de um padrão estético que julga e descrimina. Quanto mais magro, mais bonito e saudável, portanto, mais desejável e mais próximo de atingir a “meta” da pessoa feliz e bem-sucedida. Será?

 Será que sucesso e felicidade tem a ver com a forma do corpo ou, como ouvimos muito: um corpo em forma? E um corpo em forma é um corpo saudável? E que forma é esta que exige tantas dores, sacrifícios e restrições?

“Você não pode transformar seu corpo em uma meta.

 O seu corpo é você, você é o seu corpo.

Você não é uma meta” (depoimento de um paciente).”

Ouvimos mulheres dizendo: só serei feliz, realizada e amada quando conseguir emagrecer. Perdem-se anos, às vezes a vida inteira, tentando atingir um padrão. Tentando corresponder a um ideal de beleza, tentando ser desejável, tentando ser amado, tentando ser aceito. Perde-se, muitas vezes, a oportunidade de viver.

Não é só a mídia que pressiona.  Vemos mães que não toleram, não permitem que sua filha (principalmente), seja gorda. Usam de todos os argumentos e chantagens para garantir que a menina “não saia da linha”. Muitas vezes chegam a ser cruéis, causando um enorme sofrimento: a filha é boa aluna, inteligente, boa amiga, esforçada, dedicada, mas é gorda e a mãe (ou os pais) não aceitam, criticam e são capazes de dizer que se envergonham da filha que têm!

Sabemos que o preconceito contra a pessoa gorda recai muito mais sobre as mulheres afinal, ainda vivemos em uma sociedade predominantemente machista. Alguns homens (mesmo que estejam “fora de forma”) cobram de suas parceiras o corpo perfeito, da mesma forma que mulheres fazem duras críticas a um corpo que consideram fora do padrão. O preocupante é que muitas mulheres reagem acreditando que têm a obrigação de corresponder a esta expectativa. E assim o ciclo se forma!

Dietas, academias, drogas e restrições. Mulheres, rotas alteradas, que adoecem de verdade. Aceitam o viver como uma dieta restritiva eterna, desenvolvem compulsão, depressão, fobias e não conseguem ter amor ou prazer com seu corpo.

A doença não é estar gorda. A doença é o que você faz da sua vida psíquica para alcançar um padrão que nada tem a ver com as necessidades de seu corpo. Aliás, com corpo nenhum!

Podemos refletir: a maioria das pessoas e dos profissionais de saúde entende que se uma pessoa que, apesar de realizar dietas, usar medicamentos e praticar atividade física não consegue emagrecer, fracassou no seu objetivo. O que é fracasso? De quem é o fracasso?

 Muitas vezes os próprios profissionais da saúde não reconhecem sua falta de escuta, de criatividade, de acolhimento, sua falta de visão para perceber a pessoa gorda para além de seu peso, repetindo, exaustivamente, seus preconceitos e sua estreiteza perante o sofrimento alheio sem fim.

O tormento do corpo magro não pertence apenas as gordinhas.  Conhecemos muitas mulheres que têm corpos desenhados de acordo com as definições do esteticamente belo e aceitável e, mesmo assim, se cobram a cada mordida, pela caloria a mais que estão ingerindo.

Já ouvimos vozes dizendo, talvez perplexas ou indignadas: “mas e a saúde da pessoa? Não é só questão de estética, a pessoa magra é mais saudável. Gordo (ou patologicamente falando, “obeso”) é doente, se não emagrecer vai desenvolver inúmeras “comorbidades”, etc, etc.

Entendemos, sim, que cuidar da saúde é muito importante, porém acreditamos ser necessário desenvolvermos um olhar mais abrangente, e por isto questionamos: será que a pessoa gorda que sofre preconceito, patrulhamento e perseguição, que é desprezada e não aceita na família, no mercado de trabalho, com os amigos e etc, tem alguma condição de se sentir saudável e feliz?

A quem estamos ajudando ao fazer a pessoa se sentir esgotada, fracassada, impotente e doente emocionalmente?

Acreditamos que é possível saborear a vida, buscar realizações, ter espaço para refletir e tomar decisões a respeito dos caminhos de seu próprio corpo, e de seus descaminhos também. Temos consciência que não é tão simples assim. Nos dedicamos a pesquisar, estudar e repensar sobre as questões que envolvem o ganho de peso. Nossa atuação busca recuperar a saúde psíquica, a vitalidade e o prazer de viver.

Diante de nós, encontramos seres humanos com suas angústias e anseios, suas dificuldades e potenciais, satisfações e incompletudes. Diante deles, a ferramenta que utilizamos é a do acolhimento, do caminhar junto e isso, certamente, independe do que temíveis balanças são capazes de mensurar.

A psicoterapia, embasada na abordagem psicossomática, propõe re-conhecer e re-significar a capacidade de realizar enfrentamentos na vida, efetivando escolhas que se concretizam por vontade própria, num caminho pleno de movimento, com autonomia que se conquista a cada passo.

Um caminho onde todos são bem-vindos e para o qual todos são convidados.

Grupo Alethea.

Equipe

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