Sobre relações abusivas.

Sobre Relações Abusivas

Este texto é dedicado à todas as mulheres:  mães, esposas, amantes, namoradas, filhas, noras, mulheres maduras, jovens mulheres: a todas aquelas que acreditam que é possível ter um companheiro/parceiro em quem podem confiar e amar.

Será que já falamos tudo sobre relacionamentos abusivos?

Não quero falar só de estatísticas, sei da importância das informações, dos dados, mas agora eles não cabem nesse texto.

A história pode provar que sempre houve relações abusivas: de pais para os filhos, de filhos para os pais, de empregador para empregado, nas relações afetivas etc. mas, é alarmante e triste quando presenciamos ou vivemos relações abusivas de homens para mulheres.

Quero falar da dor, da vergonha, da angústia, da tristeza, das feridas, que acontecem nas relações afetivas, onde a vítima é uma mulher.

Preciso dar ouvidos então, ao coração, preciso ouvir a indignação.

As relações perversas. O abuso. O machismo. A posse. O desejo de submeter. A covardia. A violência.

Algumas mulheres vivem o abuso sem se dar conta, consideram que é assim mesmo, destino, vida de mulher. Ainda hoje somos educadas para tolerar, nos calar, servir, não reagir, não competir, não enfrentar, perdoar, assumir a culpa….

Mulheres que contam suas experiências com abusadores, cuja relação durou dias, meses, ou muitos e muitos anos, seguem a vida, quando não são mortas por eles. Seguem com marcas difíceis de apagar, o que nem é possível, mas buscam superar.

 A libertação, quando acontece, vem acompanhada de muito sofrimento, muita culpa e uma certa dose de incredibilidade, que o dicionário nos traduz: “algo em que não se pode crer ou que não se consegue crer; qualidade daquilo que produz admiração ou espanto por ser extraordinário.” É frequente que se perguntem: “como eu não percebi antes?”

Os questionamentos são muitos: como isso foi acontecer comigo? como me deixei enganar, desse jeito? por que ele mudou, se no começo do relacionamento tudo ia bem? por que foi acontecer desse jeito? quando tudo começou? por que não consegui romper, reagir? Não acredito que está acontecendo comigo, afinal sou uma mulher bem-informada e inteligente, parece um sonho… eu estava cega.

Depoimento 1

“Como tudo começou”

“Tenho clareza agora, que começou nos tempos de namoro…algumas reações estranhas e até mesmo violentas … mas eu justificava, como sendo demonstrações do amor, que ele dizia sentir por mim.

Continuou nos anos de casamento… mas eu justificava, pela estressante rotina de trabalho.

Até que minha filha, na época com 20 anos, me falou que o pai era abusivo comigo. Foi um choque! Começaram a “cair as fichas”

Por tanto tempo, achei que a culpa desse relacionamento não dar certo, era minha.

Ao longo dos anos, fui me fechando, me tornando triste e calada.

Demorei, mas consegui a determinação de cuidar da minha saúde mental.

E esse processo é longo e dolorido… mas tem me apresentado à plenitude da vida.

Hoje percebo que estou, finalmente, me tornando a mulher que nasci para ser.

A vida é linda!”

Jovem senhora de 58 anos

A culpa

Há séculos nos fazem acreditar que a culpa é nossa se nosso relacionamento não vai bem, se não conseguimos dar prazer sexual ao parceiro, se o parceiro trai, se a casa está mal administrada, se as crianças vão mal na escola, acho até que a culpa é nossa se chove quando deveria fazer sol!

Arrastamos a culpa por anos a fio. Temos receio de investir em novos relacionamentos porque nos sentimos insuficientes e imaturas. Temos medo.

Mulheres que passaram, ou passam por relacionamentos onde o abuso é rotineiro, sabem o que é viver ao lado do medo. Temem por suas vidas, por sua segurança e de seus filhos. Sondam o humor do parceiro, será que hoje ele está bem? será que não vai ficar bravo se eu pedir delicadamente pra ele colocar o lixo na lixeira? parece que ele bebeu um pouco a mais, está estressado, preciso ficar bem quietinha pra ele não me agredir.

Quando a vítima se sente culpada.

Sem rede de apoio e sem independência financeira, sente-se sozinha, desamparada. Na maioria das vezes experimenta um sentimento de vergonha, esconde das pessoas o que está vivendo, dessa forma “protegendo o abusador”, justificando suas ações e perdoando, acreditando nas promessas e juras de amor. Quando consegue agir, sair da relação que a deixa imobilizada, sofre preconceitos, e julgamentos. Não raro, a vítima se torna estatística de feminicídio.

Segundo matéria do G1 em 20-08-2021, sobre as vítimas de violência doméstica durante a pandemia de Covid:

“De acordo com levantamento da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo (SMDHC), o número de mulheres que procuraram os abrigos aumentou durante a quarentena, quando o governo estadual implantou medidas de restrições e distanciamento social.

Antes da pandemia, de março de 2019 a março de 2020, a secretaria abrigou 1.139 mulheres vítimas de violência doméstica.

Entre março de 2020 a março de 2021 o número de vítimas abrigadas aumentou para 1.496.

Enquanto escrevo, acompanho as notícias: homens que não aceitam a separação, matam suas companheiras e depois cometem o suicídio; homens que defendem outros homens que cometeram crimes terríveis, justificando que “é preciso ouvir o outro lado”, usando o argumento de que se a mulher foi agredida, mutilada, aleijada ou morta ela deve ter feito por merecer. Vemos famílias que para sempre, ficam marcadas pela crueldade e homens que não raro ficam impunes.

Como contar para uma criança que sua mãe foi morta pelo pai?

Como recomeçar a vida depois da vivência da dor física e da humilhação?

Como voltar a confiar?

Como ter esperança em novos relacionamentos?

Como saber colocar limites?

Como não perder a noção do que é certo ou do que é errado, do que é abuso na relação?

Depoimento 2

“Foram 7 anos de um relacionamento conturbado em que eu apostei tudo o que eu tinha e o que eu não tinha para fazer dar certo. Mesmo assim, nada foi suficiente! Eu “corrigi” todas as ações que ele dizia que eram erradas, mudei meu jeito de ser, mudei horários dos esportes que eu praticava, me afastei de amigas e amigos, entre muitas outras coisas, mas ele sempre encontrava algo que o incomodava para exigir ainda mais de mim, porque eu nunca estava à altura de ser a esposa e mãe de família que ele almejava! Ou ele simplesmente dizia que não acreditava que eu o amasse de verdade para que eu abrisse mão de algo como prova do meu amor! Eu pisava em ovos a cada passo que eu dava no meu dia a dia, porque eu não sabia qual palavra ou atitude seria reprovada por ele e poderia gerar mais uma explosão, mais um término, mais uma agressão verbal ou até mesmo física.

Hoje eu vejo que tudo o que eu vivi poderia ter sido evitado se eu desse um basta no terceiro mês de relacionamento, quando ele me tratou como um lixo gritando comigo no meio da rua, dirigindo feito louco e terminando comigo pela primeira vez porque eu atrasei para irmos a uma festa e ele não tolerava atrasos. Eu estava toda arrumada e ele me deixou em casa e foi à festa sozinho! Ele quis me dar uma lição para eu ser mais responsável e a partir daí, eu o acostumei a me dar várias lições.

…do príncipe ele se tornava um monstro em poucos segundos. Isso me fez perder o discernimento do que era real e do que não era. Teve momentos que eu fiquei tão abalada que eu preferi acreditar que o que eu tinha vivido não era real, tinha sido um pesadelo e por isso eu deveria apagar aquilo da minha memória e seguir em frente com o relacionamento. Até porque, era muito difícil acreditar que aquele homem tão maravilhoso era capaz de fazer coisas tão perversas comigo. E pior, após as explosões, depois que eu já estava destruída e aos prantos, ele demonstrava arrependimento, dizia que me amava, que era louco por mim e que ele reagia assim porque não se conformava com minhas atitudes, e que se eu as mudasse com certeza nosso relacionamento seria melhor. Ele sabia como entrar na minha mente e fazer eu me sentir culpada para que eu não pudesse condená-lo como eu deveria. Toda a manipulação que ele fez me deixou doente mentalmente, tive depressão algumas vezes.

…me agredir, me empurrar, me encurralar numa parede com o dedo na minha cara, me xingar, tudo isso FOI MUITO ERRADO!

Quando eu tomei a decisão de terminar e ir embora do apartamento onde morávamos, a ideia de voltar para a casa dos meus pais parecia ser uma derrota para mim, mas percebi que eu poderia olhar por outra perspectiva e tratei isso como uma benção, pois pelo menos eu tinha um lugar em que eu era bem-vinda e podia ser acolhida até me reestabelecer.

De fato, isso aconteceu! Eu me afastei completamente dele (não tive mais nenhum contato, não atendi nenhuma ligação e nem vi nenhuma mensagem ou e-mail), fiquei sem acesso a redes sociais por 2 meses, me cuidei, me tratei, e tudo começou a dar certo pra mim. Mudei de trabalho, comprei um apartamento e foquei todas minhas energias na reforma dele, comecei um mestrado, comecei a sair e conhecer pessoas novas, comecei a ser eu mesma, ser a mulher que eu tinha esquecido que eu era, tomando todas as decisões e fazendo escolhas por conta própria

… gostaria de alertar que qualquer mulher está sujeita a viver um relacionamento abusivo! Eu sou nova, pós-graduada, trabalho em uma multinacional, mas nenhum estudo me preveniu quanto a isso! Portando, o meu conselho é que sempre tenham em mente que: agressão verbal é intolerável, agressão física é intolerável! Um relacionamento em que o outro diz o que é certo e errado sem levar sua opinião em consideração, é ABUSIVO. Não permita que o outro te obrigue a se afastar de amigos ou família! Não permita que o outro te impeça de fazer algo que goste e te faz bem! Não permita que o outro erre contigo e ainda te culpe! Não permita que o outro tire a sua ESSÊNCIA! Se algum homem der indícios de alguma dessas atitudes, FUJA! Se AME acima de tudo e de qualquer homem!!! “

Jovem de 31anos

Precisamos perder o medo, precisamos acreditar que temos saída.  Ninguém tem o direito de desrespeitar, humilhar, agredir, violentar qualquer ser vivo.

“A máxima “Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” é coisa do passado. Qualquer pessoa pode fazer uma denúncia pelo serviço que tem o objetivo de auxiliar mulheres em situação de violência em todo o país. A denúncia de conhecidos e vizinhos, por exemplo, pode fazer toda a diferença entre uma agressão e um feminicídio, especialmente durante a pandemia do novo coronavírus. Nenhuma mulher deve enfrentar esse problema sozinha e toda a sociedade é responsável pelas mulheres em situação de violência. Cabe ressaltar, o Ligue 180 preserva o anonimato dos denunciantes.”

“Entre os órgãos que podem ser buscados pelas mulheres em situação de violência estão: as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), as Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Promotorias Especializadas/Núcleos de Gênero do Ministério Público, Centros de Referência de Atendimento à Mulher, Núcleos Especializados no Acolhimento e Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência das Defensorias PúblicasPatrulhas/Rondas Maria da Penha, Casas-Abrigo e as Casas da Mulher Brasileira, por exemplo.”

https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/denuncie-violencia-contra-a-mulher/violencia-contra-a-mulher

“Eu cresci ouvindo para não ligar para os homens.

Meu irmão (mais velho) me provocava e eu ouvia “não liga, é bobagem”, então entendi que aos homens era dado o direito de provocar.

Ouvia meninos da escola falando coisas desrespeitosas sobre meninas, sobre mim, e ouvia: “não liga, é coisa de menino” então entendi que aos homens era dado o direito de ver os nossos corpos como objetos.

Um dia eu achei umas revistas no banheiro que eu dividia com meus irmãos, e me senti muito incomodada. De novo, ouvi “não liga, não é nada”, entendi que aos homens era dado o direito de expressarem sua sexualidade.

Na rua, quando comecei a ouvir cantadas, mais uma vez aquele “não liga”, entendi que aos homens era dado o direito de manifestarem seus desejos.

Aí eu fiquei adolescente e de repente eu tinha que ligar, “assim ninguém vai te querer”, bom, daí eu já não ligava e de tanto não ligar, eles me ligavam, mas também não era mais sobre isso, porque à essa altura, eu, que sempre liguei, que nunca aceitei provocações, que sempre me neguei a ser objeto, a ser silenciada e a não poder demonstrar os meus desejos…

Já era feminista

Porque uma feminista é filha do machismo,

Neta do achismo

De que a voz da mulher é mimimi

Feminista não é mal-comida

Não é mal-nascida

Não é mal-amada

Feminista é apenas quem ouviu “porque você é mulher” como resposta, como xingamento, como aposta

Feminista é quem liga

 e quem não liga pra estupro, assédio ou violência,

chamamos do quê?

Andréa Góes

@maternidade.poetica


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